
Você dorme, mas continua cansada.
Descansa, mas não sente que realmente recuperou as forças.
Talvez tenha passado o fim de semana inteiro sem fazer quase nada e, ainda assim, tenha chegado à segunda-feira com a sensação de que precisava de mais tempo.
Pequenas tarefas começam a exigir um esforço que antes não exigiam. Responder a uma mensagem, resolver uma questão simples, tomar uma decisão ou até organizar aquilo que está à sua volta pode parecer muito mais difícil do que deveria.
E talvez você mesma não consiga explicar exatamente o que está acontecendo.
Você continua fazendo o que precisa fazer.
Trabalha. Cuida da casa. Cuida dos filhos. Resolve problemas. Cumpre compromissos. Responde às pessoas. Continua aparecendo.
Por fora, pode até parecer que está tudo bem.
Mas por dentro existe uma sensação difícil de nomear.
Como se alguma coisa tivesse chegado ao limite.
Quando o cansaço deixa de ser apenas cansaço
Todos nós nos cansamos.
Há períodos em que dormimos menos, trabalhamos mais, enfrentamos problemas familiares, passamos por mudanças ou simplesmente precisamos lidar com mais coisas do que gostaríamos.
Nessas situações, é natural sentir cansaço.
O descanso costuma ajudar.
Depois de uma noite de sono, alguns dias mais tranquilos ou de um período de férias, pouco a pouco recuperamos a disposição.
O esgotamento emocional pode ser diferente.
Não necessariamente porque a pessoa deixou de fazer coisas. Muitas vezes, acontece justamente o contrário.
Ela continua fazendo.
Continua funcionando.
Continua cumprindo aquilo que esperam dela.
Mas fazer tudo começa a custar cada vez mais.
É como se o esforço necessário para permanecer funcionando tivesse aumentado enquanto os recursos internos para lidar com esse esforço diminuíssem.
E isso pode ser muito confuso.
Porque existe uma cobrança silenciosa:
“Eu deveria estar bem.”
“Não aconteceu nada tão grave.”
“Tem gente passando por coisas muito piores.”
“Eu só preciso descansar.”
“Preciso me organizar.”
“Preciso ter mais disciplina.”
“Preciso parar de reclamar.”
Só que nem sempre a questão é falta de força de vontade.
Às vezes, existe um sofrimento que foi sendo acumulado durante muito tempo.
O corpo pode continuar, mesmo quando você já está no limite
Uma das coisas mais difíceis de perceber no esgotamento emocional é que a pessoa pode continuar funcionando durante muito tempo.
Ela pode continuar trabalhando mesmo estando exausta.
Pode continuar cuidando de todo mundo mesmo sem conseguir cuidar de si.
Pode continuar sorrindo, conversando e cumprindo suas responsabilidades.
Pode até ouvir das pessoas ao seu redor:
“Mas você parece tão bem.”
E talvez seja justamente isso que torne tudo ainda mais difícil.
Porque quando ninguém percebe o quanto está sendo difícil, a própria pessoa pode começar a duvidar do que sente.
Talvez eu esteja exagerando.
Talvez seja preguiça.
Talvez eu esteja ficando fraca.
Talvez eu simplesmente não esteja sabendo lidar com a vida.
Mas sofrimento não precisa ser visível para ser real.
Existem pessoas que aprenderam tão bem a continuar que até elas próprias demoram para perceber que estão exaustas.
Nem sempre conseguimos descansar porque o problema não está apenas na falta de descanso
Existe uma diferença importante entre estar cansada e viver em um estado constante de tensão, preocupação ou sobrecarga.
Quando a mente permanece ocupada o tempo todo, o descanso pode deixar de ser verdadeiramente restaurador.
Você deita, mas continua pensando.
Tenta dormir, mas a cabeça continua trabalhando.
Sai de férias, mas leva as preocupações junto.
Senta para assistir a alguma coisa, mas sente culpa por não estar fazendo algo mais produtivo.
Tem um momento livre e imediatamente pensa em tudo aquilo que ainda precisa resolver.
Às vezes, até o descanso vira uma tarefa.
“Preciso aproveitar para descansar.”
“Preciso dormir cedo.”
“Preciso relaxar.”
“Preciso desligar a cabeça.”
E quanto mais tentamos obrigar a mente a descansar, mais percebemos que ela não obedece.
Por isso, talvez a pergunta não seja apenas:
“Quanto tempo eu estou descansando?”
Mas também:
“O que está acontecendo dentro de mim enquanto eu tento descansar?”
O esgotamento emocional pode aparecer de muitas formas
Nem sempre ele chega como uma grande crise.
Às vezes aparece lentamente.
Você começa a ter menos paciência.
Coisas pequenas incomodam mais do que antes.
Conversas que antes eram naturais passam a parecer cansativas.
Você começa a evitar pessoas.
Perde o interesse por coisas que costumava gostar.
Sente dificuldade para se concentrar.
Tem a impressão de que sua cabeça está cheia.
Fica mais sensível.
Chora com facilidade ou, ao contrário, sente que não consegue mais chorar.
Pode surgir irritação, culpa, sensação de fracasso ou vontade de ficar sozinha.
E existe ainda uma sensação particularmente difícil:
a de não se reconhecer.
“Eu não era assim.”
“Por que estou reagindo dessa maneira?”
“Por que tudo está me incomodando?”
“Por que não consigo simplesmente voltar ao normal?”
Talvez porque aquilo que você chama de “normal” tenha exigido de você muito mais do que percebeu.
Às vezes, o esgotamento começa muito antes de percebermos
Nem sempre existe um único acontecimento responsável pelo esgotamento.
Pode haver uma sucessão de pequenas coisas.
Anos tentando dar conta.
Responsabilidades que nunca diminuem.
Relacionamentos nos quais você precisa estar sempre disponível.
A necessidade de agradar.
A dificuldade de dizer não.
A sensação de que tudo depende de você.
Uma experiência difícil que nunca encontrou espaço para ser elaborada.
Uma perda.
Uma mudança.
Uma cobrança constante.
Um trabalho que exige mais do que você consegue oferecer.
Ou simplesmente uma vida construída durante muito tempo em torno da necessidade de continuar.
Quando olhamos apenas para o momento atual, talvez pareça estranho estar tão cansada.
Mas quando olhamos para a história inteira, algumas coisas começam a fazer sentido.
E talvez seja justamente aí que a terapia possa contribuir.
Não para procurar rapidamente uma explicação para tudo.
Mas para criar espaço para compreender.
Você não precisa esperar chegar ao limite
Muitas pessoas procuram ajuda somente quando já não conseguem mais continuar.
Quando o corpo começa a responder.
Quando o sono muda.
Quando a ansiedade aumenta.
Quando o trabalho se torna impossível.
Quando os relacionamentos começam a ser afetados.
Quando a sensação de estar no limite já não pode mais ser ignorada.
Mas você não precisa chegar a esse ponto para olhar para aquilo que está acontecendo.
Você pode procurar ajuda simplesmente porque percebeu que não está bem.
Porque alguma coisa mudou.
Porque está cansada de se sentir cansada.
Porque percebe que está vivendo no automático.
Porque gostaria de entender por que determinadas situações continuam doendo.
Porque talvez tenha passado tanto tempo tentando ser forte que já não saiba muito bem como é simplesmente existir sem precisar dar conta de tudo.
A terapia não precisa começar com uma resposta.
Pode começar com uma pergunta.
Pode começar justamente naquele lugar em que você ainda não sabe explicar o que sente.
E talvez esse seja um dos espaços mais importantes que podemos oferecer a nós mesmos: um lugar onde não precisamos chegar com tudo organizado, explicado ou compreendido.
Um lugar onde podemos começar exatamente de onde estamos.
Talvez você não esteja apenas cansada
Talvez o seu cansaço esteja tentando dizer alguma coisa.
Não existe uma resposta única para o que sentimos, e nem todo cansaço significa esgotamento emocional. Existem também questões físicas e outras condições que podem produzir fadiga e sofrimento e que merecem avaliação adequada.
Mas quando o descanso já não parece suficiente, quando a vida começa a pesar mais do que antes e quando você percebe que está apenas tentando atravessar os dias, talvez valha a pena parar por um momento e escutar o que está acontecendo.
Não para se cobrar uma nova solução.
Não para encontrar mais uma coisa para fazer.
Mas para compreender.
Porque, às vezes, o que precisamos não é aprender a carregar ainda mais.
É compreender por que estamos carregando tanto.
Se você sente que está cansada de carregar tudo sozinha
A terapia pode ser um espaço para olhar para aquilo que você sente sem precisar transformar imediatamente esse sentimento em uma resposta.
Um espaço para falar, compreender e construir, pouco a pouco, uma relação diferente com a própria história.
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Entre aquilo que você sente e aquilo que você é, existe uma história.
Pâmela Friedericks – Terapeuta em Psicanálise

