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Será que tenho depressão? Quando a tristeza não passa

Há uma tristeza que chega e vai embora.

E há outra que fica.

Acorda com ela. Leva-a para o trabalho, para a mesa do jantar, para a cama. Talvez já nem se lembre de quando começou.

E então, numa noite qualquer, escreve no telemóvel: «teste se eu tenho depressão».

Se chegou aqui assim, quero dizer-lhe uma coisa antes de tudo: fazer esta pergunta não é exagero. Já é uma forma de cuidar de si.

Este texto é curto, para um primeiro passo: a diferença entre tristeza e depressão, os primeiros sinais e o teste. Se o que sente já dura há muito tempo, escrevi um texto mais longo, com um guia de reflexão e o que fazer numa crise: Depressão profunda e prolongada: quando já não é apenas tristeza.

Tristeza ou depressão: qual é a diferença?

A tristeza faz parte da vida. Dói, mas costuma mexer-se: vem em ondas, alivia, volta, e com o tempo abre espaço para outras coisas.

A depressão é diferente. É quando a tristeza, o desânimo ou o vazio ocupam quase todos os dias, durante mais de duas semanas, e começam a tirar a cor a tudo o resto.

Muitas vezes, a pessoa não diz «estou deprimida». Diz outras coisas.

«Já nada me dá vontade.»

«Estou sempre cansada, mesmo depois de dormir.»

«Tenho raiva da minha vida e não sei de onde vem.»

Estar triste não é o mesmo que estar deprimida. Mas estar a funcionar também não é o mesmo que estar bem.

Os primeiros sinais

Quando duram mais de duas semanas, há sinais que merecem ser olhados com cuidado:

  • perder o interesse ou o prazer nas coisas de que gostava;
  • sentir-se em baixo, sem esperança, quase todos os dias;
  • dormir muito mal, ou dormir demais;
  • um cansaço que o descanso não resolve;
  • sentir que não vale nada, ou uma culpa que não larga;
  • pensar que seria melhor não estar cá.

Um sinal sozinho não quer dizer depressão. O que importa é a intensidade, o tempo que dura e o quanto está a pesar no seu dia a dia.

Se o que mais pesa é um cansaço que já não passa com o descanso, a página sobre esgotamento emocional ajuda a separar uma coisa da outra. Se está longe de casa, a tristeza tem muitas vezes outra camada: a saudade e o recomeço de quem emigra.

O teste: três minutos para olhar com calma

Deixei no site um teste de depressão com as nove perguntas do PHQ-9, o questionário que os médicos usam em todo o mundo para rastrear sinais de depressão. Leva uns três minutos. As respostas ficam só no seu ecrã.

O teste não faz diagnóstico. É mais um espelho: ajuda a ver aquilo que, às vezes, estamos a tentar não ver.

Se pensa que seria melhor não estar cá

Quero falar disto com calma, porque importa.

Se nos últimos dias pensou em desaparecer, em fazer-se mal, ou que os outros ficariam melhor sem si, não precisa de esperar por nada para pedir ajuda. Pode ligar hoje:

  • 112, se estiver em perigo agora;
  • 1411, a Linha de Prevenção do Suicídio e Apoio Psicológico, gratuita, a qualquer hora;
  • SNS 24, 808 24 24 24, opção 4, aconselhamento psicológico, 24 horas por dia.

Não precisa de saber explicar. Pode começar por dizer: «Não estou bem.»

Isso chega.

O que a psicanálise nos ajuda a perceber

Em 1917, num texto chamado «Luto e melancolia», Freud comparou duas maneiras de sofrer uma perda.

No luto, a pessoa sabe o que perdeu. Dói muito, mas, com tempo, a dor vai-se mexendo e o mundo volta, aos poucos, a ter cor.

Na melancolia, o nome que Freud dava a uma tristeza que se fecha sobre si, a perda fica mais escondida. Às vezes sabe-se quem se perdeu, mas não o que se perdeu com essa pessoa. E a dor, em vez de ir para aquilo que foi perdido, vira-se contra o próprio eu.

Freud resumiu-o numa frase (em tradução livre): «No luto, é o mundo que se torna pobre e vazio; na melancolia, é o próprio eu.»

Talvez por isso a tristeza que fica venha tantas vezes com frases como «não valho nada», «a culpa é minha», «sou um peso». Freud reparou que estas acusações, ouvidas com atenção, muitas vezes falam de outra coisa: de uma perda, de uma mágoa com alguém importante, de algo que não pôde ser dito e ficou virado para dentro.

Isto não quer dizer que toda a depressão tenha a mesma origem, nem dispensa o médico de família. Mas ajuda a perceber porque é que, na terapia, não perguntamos só «o que sente?». Perguntamos também:

O que perdeu, mesmo que pareça pequeno?

Há alguma coisa que ficou por chorar?

De quem é, no fundo, a voz que lhe diz que não vale nada?

Perguntas frequentes

Como sei se tenho depressão ou se é só tristeza?
A tristeza costuma mexer-se: vem e vai. A depressão instala-se em quase todos os dias, durante mais de duas semanas, e tira o interesse pelas coisas. Só uma avaliação com um profissional de saúde, em conversa, pode dizer o que se passa. O teste PHQ-9 ajuda a perceber se há sinais.

Um teste online diz se tenho depressão?
Não. Um questionário de rastreio mostra se há sinais e com que intensidade, mas não substitui uma consulta. Se o resultado a deixar preocupada, ou o deixar preocupado, fale com o médico de família.

Preciso de medicação?
Essa avaliação é médica. A terapia pode ser feita com ou sem medicação. Se fizer sentido, o médico de família é o primeiro passo.

Talvez não precise de ter a certeza

Talvez continue sem saber se aquilo que sente tem um nome.

E tudo bem.

Não precisa de chegar com um diagnóstico. Não precisa de estar no limite. Pode procurar ajuda simplesmente porque percebeu que já não se reconhece.

Entre aquilo que sente e aquilo que é, existe uma história.

Talvez seja altura de ela ser escutada.

Vamos conversar?

Fontes

Se está em crise ou a pensar em fazer-se mal, ligue 112. Para falar com alguém a qualquer hora: 1411 (Linha de Prevenção do Suicídio e Apoio Psicológico) ou SNS 24, 808 24 24 24, opção 4, gratuitos.

Pâmela Friedericks
Pâmela FriedericksTerapeuta de orientação psicanalítica · Curso de Psicanálise Clínica, Instituto Holístico Portugal

Também vim do Brasil e sei o que é recomeçar. Atendo online, em português, quem vive em Portugal e quem está longe de casa.

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